A Mansão, por Julian SA

A Mansão

por Julian SA


A escada rangia, os balaústres subiam levemente a cada passo que dava sob os degraus. O corrimão parecia uma cobra gorda e pesada que levemente ondulava e guinchava. Como encontraria os outros? Quanto mais perambulava por aqueles corredores desertos e penumbrosos, com o coração em uma das mãos e um candeeiro com alça de xícara à outra, maior a casa se apresentava.

“Por que O Doido da Machete tivera que nos trazer para esse lugar macabro?”, pensava ela, referindo-se ao pentelho que vivia no orfanato junto dela. Foi uma confusão danada quando uma árvore caiu sob a traseira do ônibus que os levavam para um ginásio seguro, logo depois de atolar, em meio ao vendaval do furacão. Estava ventando à beça. Mais árvores ameaçavam a cair sob o veículo e em meio a gritaria e confusão, o motorista saíra estabacando-se pela porta da frente, quicando sob os degraus, aterrissando na estrada, com um som molhado. Abafando totalmente os gritos de “acalmem-se, crianças”, da tutora, os passageiros berraram e alguns saíram correndo do ônibus, atropelando uns aos outros. Maicon pegara sua mão. Ela pegara a mão de Pedro com sua outra livre. Pedro pegara a de Daniel, que pegara, por final, a de Marieta.

Daniel era o mais fora de si, daquele grupo. Não foi dessa maneira que perdera seus pais, dois anos atrás, em uma tempestade no México? Maicon foi quem os levara para aquela mansão, vira uma criança, pelo menos era o que havia dito.

Chamou-o, mexendo a boca com delicadeza, sem pronunciar som algum, acenando para que a seguisse. Montava um animal que se parecia muito com um porco. Levava em uma das mãos uma lança comprida em demasia para seu corpo pequenez, e penachos sob cabeça, como um cocar. A chuva açoitava-os com brutalidade e o vento vergava as árvores.

Ao alcançar o pavimento superior, Amélia deu-se de fronte com uma única porta, uma já conhecida. Às suas costas, olhando para baixo, via-se apenas breu. A passagem se entreabriu e dedos podres, como as de um zumbi, apresentaram-se como aranhas.

“Preciso de um manicômio, estou louca!”, pensou ela. Os dedos apodrecidos apertaram a madeira com delicadeza. As unhas eram enormes e se enrolavam sobre elas próprias.

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